O que é Bruxaria Tradicional? Sybilla Rhein aborda a história do conceito, suas diferenças em relação à magia popular e ao folclore, suas origens modernas e os principais equívocos sobre a tradição.

O que é Bruxaria Tradicional?

História, conceito e os equívocos de uma expressão quase contemporânea

Por Sybilla Rhein

A expressão Bruxaria Tradicional tornou-se relativamente comum no vocabulário esotérico contemporâneo dando nome a livros, cursos, grupos e praticantes utilizam o termo para descrever caminhos bastante diferentes entre si. Essa popularização, entretanto, trouxe consigo um problema: quanto mais a expressão passou a circular, menos preciso parece ter se tornado seu significado.

Bruxaria Tradicional não é simplesmente uma maneira mais antiga de praticar bruxaria, também não é sinônimo de magia popular, paganismo, reconstrução histórica ou de qualquer prática que utilize ervas, ancestrais, espíritos e elementos do folclore.

Compreender o termo exige, antes de tudo, separar três coisas que frequentemente são confundidas: a bruxaria enquanto fenômeno histórico, a bruxaria presente no imaginário e no folclore e os movimentos modernos que reivindicaram a bruxaria como caminho de prática.

Essa distinção é fundamental.

A bruxaria antes da Bruxaria Tradicional

Muito antes de existir uma corrente com a denominação  Bruxaria Tradicional, existiam pessoas acusadas de feitiçaria, práticas mágicas populares, especialistas em cura e adivinhação, encantadores, cunning folk, benzedores, adivinhos e uma extensa variedade de operadores mágicos inseridos em diferentes sociedades.

Entretanto, seria historicamente problemático colocar todos eles dentro de uma única prática  chamada “bruxaria”.

Nos documentos europeus da Idade Moderna, por exemplo, aquilo que encontramos sob palavras equivalentes a witchcraft, sorcellerie, stregoneria ou brujería não corresponde necessariamente ao significado que atribuímos hoje à palavra bruxaria.

A própria ideia da bruxa foi construída por diferentes camadas étnicas e sociais.

Havia práticas efetivamente realizadas pela população; acusações entre vizinhos; crenças folclóricas; interpretações teológicas; procedimentos judiciais; demonologia e, finalmente, um imaginário sobre reuniões noturnas, metamorfoses, voos, espíritos familiares e encontros com figuras sobrenaturais.

Esses elementos acabaram se misturando.

Por isso, estudar historicamente a bruxaria exige uma pergunta aparentemente simples: estamos estudando aquilo que determinadas pessoas faziam ou aquilo que outras pessoas acreditavam que elas faziam? Nem sempre as duas coisas são iguais.

O problema da ideia de uma antiga religião das bruxas

Entre os séculos XIX e XX, alguns pesquisadores tentaram interpretar os registros históricos da perseguição às bruxas como vestígios de uma religião pagã organizada que teria sobrevivido clandestinamente à cristianização da Europa. Essa hipótese alcançou grande notoriedade sobretudo com Margaret Alice Murray, particularmente depois da publicação de The Witch-Cult in Western Europe, em 1921. Murray interpretou determinadas descrições dos processos de bruxaria como evidências da sobrevivência de um culto pré-cristão estruturado.

A hipótese exerceu enorme influência sobre o imaginário moderno da bruxaria, mas foi posteriormente submetida a críticas historiográficas severas e historicamente foi refutada. Entre os problemas apontados estão o uso seletivo de fontes, a tentativa de harmonizar testemunhos provenientes de contextos muito diferentes e a leitura excessivamente literal de documentos produzidos sob circunstâncias judiciais complexas.

Hoje, a ideia de que os julgamentos europeus revelariam uma única religião pagã organizada e secreta das bruxas não representa o consenso da historiografia especializada. Isso, porém, não significa que não existissem sobrevivências, adaptações e permanências de elementos anteriores ao cristianismo na cultura popular europeia.

Sendo essa é outra questão  muito mais interessante.

Crenças relacionadas aos mortos, espíritos domésticos, procissões noturnas, determinados seres do território, práticas agrícolas, encantamentos e concepções mágicas puderam sobreviver transformadas, reinterpretadas ou incorporadas ao universo cristão. “Cultura não funciona como uma cápsula intacta atravessando os séculos, ela transforma aquilo que recebe.”

Então, de onde vem a Bruxaria Tradicional praticada hoje ?

Aquilo que atualmente chamamos de Bruxaria Tradicional pertence sobretudo ao contexto dos movimentos de bruxaria desenvolvidos principalmente no século XX, um dos nomes incontornáveis nessa história é Robert Cochrane, pseudônimo de Roy Bowers e Michael Howard.

Na Inglaterra dos anos 1960, Cochrane apresentou uma forma de bruxaria que se diferenciava da Wicca então em expansão, sua tradição, posteriormente associada ao Clan of Tubal Cain, enfatizava elementos como ancestralidade, destino, morte, êxtase, mistério, folclore e uma concepção iniciática do ofício.

Outro personagem importante para compreender o desenvolvimento posterior desse universo é Andrew D. Chumbley, ligado a tradição Cultus Sabbati, cuja obra apresentou uma linguagem altamente simbólica e iniciática para a Arte, articulando bruxaria, sabá, sonho, visão, magia ritual e diversas influências esotéricas apresentando uma gramática da arte. Essas correntes não constituem, entretanto, uma única organização ou doutrina e sim um formato muito específico incorporado a saberes tradicionais adquiridos através de um vínculo iniciático, nem é algo exclusivo aos ingleses, é um fenômeno que nomeará esta classificação também em outras culturas.

“Bruxaria Tradicional” acabou funcionando como uma expressão abrangente para diferentes caminhos que procuram estabelecer sua identidade fora das estruturas características da Wicca e de outras formas modernas de neopaganismo.

É justamente aqui que surge outra confusão.

Bruxaria Tradicional não significa simplesmente “bruxaria antiga”

O adjetivo tradicional pode induzir à ideia de uma transmissão absolutamente ininterrupta desde um passado remoto e essa afirmação precisa ser tratada com cautela, uma tradição pode trabalhar com materiais antigos sem ser ela própria antiga.

Pode recorrer ao folclore, à magia popular, aos costumes rurais, aos registros históricos, aos grimórios, às crenças sobre espíritos e aos mitos de uma região e, a partir deles, desenvolver uma prática contemporânea, reconhecer isso não diminui uma tradição. Todavia ela pode ser atribuída ao nome bruxaria tradicional quando possui os pilares tradicionais que diferenciam esta prática de outras práticas.

Bruxaria Tradicional e magia popular também não são sinônimos

Essa talvez seja uma das distinções mais importantes, a  magia popular nasce dentro das necessidades concretas das comunidades. Curar uma enfermidade, proteger uma criança, afastar inveja, encontrar um objeto perdido, favorecer uma colheita, proteger animais, descobrir um ladrão, atrair amor, desfazer um malefício ou garantir boa sorte são exemplos recorrentes, essas práticas podem coexistir perfeitamente com a religião dominante.

Uma benzedeira profundamente católica pode empregar procedimentos que, analisados estruturalmente, são mágicos, um curador pode utilizar orações cristãs, ervas, gestos, objetos consagrados e fórmulas transmitidas oralmente sem jamais considerar a si próprio um “bruxo”. Transformá-lo retroativamente em praticante de Bruxaria Tradicional seria impor um rótulo sobre uma realidade cultural diferente.

A Bruxaria Tradicional pode beber profundamente das fontes da magia popular, mas não possui o direito de reivindicar automaticamente toda magia popular como bruxaria, essa diferença é essencial para uma pesquisa responsável.

O folclore como arquivo vivo

Para quem estuda Bruxaria Tradicional, os saberes populares ocupam  uma posição particularmente importante, durante muito tempo, a palavra folclore foi utilizada para reunir histórias, costumes, crenças, festas, superstições, receitas, cantigas e práticas consideradas pertencentes ao “povo”, por trás dessa classificação aparentemente simples existe um gigantesco arquivo da experiência humana.

Uma história sobre uma mulher que abandona seu corpo durante a noite pode preservar concepções sobre espírito e êxtase, uma narrativa sobre alguém que assume a forma de animal pode revelar crenças relacionadas à metamorfose, uma superstição sobre a soleira de uma casa pode conservar uma antiga percepção do limiar como território perigoso.

Uma receita para afastar mau-olhado pode revelar uma teoria popular sobre contágio, intenção e proteção, os praticantes precisam aprender a olhar além da superfície. Não significa aceitar cada narrativa folclórica como descrição literal de uma prática histórica, significa reconhecer que o imaginário também é documento, ele registra aquilo que uma comunidade temeu, desejou, proibiu e considerou possível.

A figura do Diabo

Outro ponto frequentemente simplificado é a relação entre Bruxaria Tradicional e o Diabo. Em algumas correntes tradicionais, a figura diabólica possui importância central, entretanto, esse Diabo não precisa corresponder integralmente à figura construída pela teologia cristã, ele pode ser uma máscara para uma infinidade de espíritos ou até mesmo o próprio diabo cristão.

Pode aparecer como adversário, iniciador, mestre da Arte, espírito do território, senhor do sabá ou imagem liminar associada ao selvagem e ao proibido. Ao mesmo tempo, seria igualmente incorreto afirmar que todo elemento diabólico encontrado nos registros históricos é apenas uma máscara cristã colocada sobre uma divindade pagã, algumas vezes essa interpretação pode ser sedutora, mas a documentação histórica exige mais cautela.

O Diabo também pertence à história cultural e, paradoxalmente, aquilo que foi criado para representar o inimigo da ordem cristã acabou adquirindo vida própria dentro do imaginário mágico.

Não existe uma Bruxaria Tradicional universal

Talvez o maior equívoco contemporâneo seja compreender o que faz de um grupo praticantes da arte, existem pilares muito clássicos que definem isso como as práticas sabáticas, diabolismo, espíritos e ancestrais; todavia dentre os diversos clãs e tradições há muitas diferenças de ordem cultural, étnica, de práxis e até de ideologia.

Algumas correntes possuem linhagens ou  várias linhas  iniciáticas, outras desenvolveram métodos próprios, algumas enfatizam o folclore regional. Outras possuem forte componente esotérico, algumas trabalham intensamente com ancestralidade e mortos; outras concentram-se em espíritos, destino, sabá, sonho ou práticas de feitiçaria.

Existem aproximações, mas também diferenças profundas.

Por isso, talvez seja mais adequado compreender Bruxaria Tradicional como uma família de correntes e práticas que dialogam com determinadas concepções históricas, folclóricas, mágicas e iniciáticas da bruxaria não-religiosa, e não como uma doutrina uniforme.

Tradição não significa imobilidade

Existe ainda uma ideia equivocada de que algo tradicional precisa permanecer absolutamente igual, nenhuma tradição humana funciona dessa maneira.

As pessoas migram, as línguas mudam, objetos desaparecem, plantas recebem novos usos, histórias atravessam fronteiras, religiões se encontram e símbolos são reinterpretados. O próprio folclore demonstra isso continuamente, uma tradição viva não é uma peça de museu, mas existe diferença entre transformação e invenção retrospectiva.

Transformar conscientemente uma prática para adequá-la a outro território ou tempo pode ser legítimo, inventar uma origem histórica e apresentá-la como fato é outra coisa. No livro Children of Cain de Michael Howard isso é totalmente demonstrado.

Um praticante que conhece e vivência sua tradição é capaz de cruzar oceanos, mudar de terra e ainda assim não perder sua essência.

Entre história e experiência

A Bruxaria Tradicional habita uma região particularmente interessante porque coloca em contato dois modos diferentes de conhecimento; de um lado está a investigação histórica: documentos, processos judiciais, tratados demonológicos, coleções folclóricas, arqueologia, antropologia e história das religiões. Do outro está a experiência do praticante: rito, sonho, encantamento, relação com o território, ancestralidade, espírito e êxtase.

Confundir essas duas dimensões produz má história e, frequentemente, uma prática empobrecida, mas colocá-las em diálogo pode produzir algo muito mais fértil.

A tradição não reside apenas na idade de uma prática, reside também na maneira como recebemos um conhecimento, compreendemos suas raízes, transformamos aquilo que precisa ser transformado e assumimos responsabilidade pelo que transmitiremos adiante.

E talvez seja exatamente aí que tradição deixa de significar simplesmente “antigo” e passa a significar continuidade consciente.

Referências para aprofundamento

COHN, Norman. Europe’s Inner Demons: An Enquiry Inspired by the Great Witch-Hunt. London: Sussex University Press, 1975.

GINZBURG, Carlo. História noturna: decifrando o sabá. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

HOWARD, Michael. Children of Cain: A Study of Modern Traditional Witches. Richmond Vista: Three Hands Press, 2011.

HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford: Oxford University Press, 1999.

MURRAY, Margaret Alice. The Witch-Cult in Western Europe: A Study in Anthropology. Oxford: Clarendon Press, 1921.

PÓCS, Éva. Between the Living and the Dead: A Perspective on Witches and Seers in the Early Modern Age. Budapest: Central European University Press, 1999.

WILBY, Emma. Cunning Folk and Familiar Spirits: Shamanistic Visionary Traditions in Early Modern British Witchcraft and Magic. Brighton: Sussex Academic Press, 2005.

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